Componentes com Tratamento de Superfície – O que podemos esperar?

Por Rafael Manfro | 07 de novembro de 2019

Rafael Manfro, Gislaine Fernandes Felipe, Vinicius Fabris, Mauricio Rosa, Gabriel Rodrigues Oliveira – Professores dos Cursos de Cirurgia Avançada para Implantodontia ABO-Florianópolis SC/Elosul-Passo Fundo RS.

O lançamento da Linha Ideale (Implacil De Bortoli) trouxe uma série de benefícios para resolução de casos protéticos complexos principalmente em regiões estéticas. Além do volume do componente e das angulações outro fator acrescentado nesta linha foi o tratamento dos componentes com anodização iônica, alterando a cor para dourado facilitando a mimetização sub-gengival.

A anodização iônica é um dos tratamentos de superfície utilizado para implantes dentários, aumentando a superfície de contato dos implantes (3, 4) e favorecendo a cicatrização precoce dos implantes e o tempo de tratamento (5).

Que os tratamentos de superfície interferem de forma positiva na osseointegração dos implantes hoje não temos mais dúvida alguma (1-5), mas e nos componentes protéticos? Esse tratamento será benéfico? Trará transtornos como o aumento da periimplantite? Ou não haverá interferência alguma?

Para tentar responder essa pergunta precisamos voltar a alguns ensaios de pesquisa quando se buscava otimizar os tratamento de superfície dos implantes. Em cultura de células osteoblásticas e fibroblástica sobre discos de titânio foi observado que o comportamento destas células era influenciado diretamente pela rugosidade do titânio resultante do tratamento de superfície (1, 2, 3). Rugosidades entre 0,7 e 2μm permitiam união dos osteoblastos diretamente na superfície do implante, fato que mudou completamente os tratamentos de superfície diminuindo o tempo de osseointegração e melhorando a qualidade desta. Nestes estudos também foi observado que rugosidades abaixo de 0,7μm permitiam uma aderência direta de fibroblastos (1, 2, 3).

Mas clinicamente o que isso pode interferir? Os componentes atuais (maioria lisos e polidos) não permitem aderência de fibras gengivais. Na região cervical temos apenas  fibras circunferenciais, tanto que sondagens intra-sulcular são facilmente realizadas sem prejuízo aos tecidos perimplantares. A possibilidade de aderência de fibroblastos na superfície dos componentes permitiria a formação de fibras gengivais perpendiculares na região cervical. Essa configuração melhoraria a estabilidade dos tecidos moles, influenciando positivamente tanto em resultados estéticos como em saúde perimplantar.

Os estudos neste sentido já estão avançando. Trabalho realizado por nosso grupo (6) e de outros centros (7) mostraram que rugosidades próximas a 0,2μm são as ideais para obter essa formação gengival.

Nossos próximos passos agora são o ajuste desta rugosidade e as pesquisas em humanos para comprovarmos esta teoria.

Referências Bibliográficas

1. Abrahamsson, I. & Berglundh, T. Tissue characteristics at microthreaded implants: an experimental study in dogs. Clinical Implant Dentistry & Related Research 8: 107–113, 2006.

2. De Oliveira PT, Nanci A. Nanotexturing of titanium-based surfaces upregulates expression of bone sialoprotein and osteopontin by cultured osteogenic cells.  Biomaterials 25:, 403–413, 2004.

3. Elias CN, Meirelles L. Improving osseointegration of dental implants. Expert Rev. Med. Devices 7: 241–256, 2010.

4. Manfro R, Bortoluzzi MC, Fabris V, Elias CN, Cavalcanti. Clinical evaluation od anodized surface implants submitted to a couter torque of 25Ncm after 60 days of osseointegration: study in humans. J Maxillofac Oral Surg 14: 1-6, 2013

5. Manfro R, Elias CN, Cavalcanti V. Como definir o Sistema de implante a ser utilizado em casos de reconstrução teciduais em implantodontia in. Manfro et al Reconstruções Teciduais em Implantodontia cap 2, Editora Plena. 2019.

6. Souza VZ, Manfro R, Joly JC, Elias CN, Penuzzo DC, Napimoga MH, Martinez EF. Viability and collagen secretion by fibroblastos on titanium surfaces with diferente acid-etching protocols. Int J of Implant Dentistry in press 2019.

7. Milleret V, Lienemann PS, Gasser A, Bauer S, Ehrbar M, Wennerberg A. Rational design and in vitro characterization of novel dental implant and abutment surfaces for balancing clinical and biological needs. Clin Implant Dent Relat Res. 21: 15-24, 2019.

8. Hall J, Neilands J, Davies JR, Ekestubbe A, Friberg B. A randomized, control, clinical study on a new titanium oxide abutment surface for improved healing and soft tissue health. Clin Implant Dent Relat Res. 21: 55-68, 2019.

9. Susin C, Stadler AF, Fiorini T, RabeloMS, Schupbach P. Safety and efficacy of a novel anodized abutment on soft tissue healing in Yucatan mini-pigs. Clin Implant Dent Relat Res. 21: 34-43, 2019.

Rafael Manfro

Especialização em cirurgia e traumatologia bucomaxilofacial – UFSC; Mestre em implantodontia – UNISA-SP; Doutorado em implantodontia – SLMandic-SP; Coordenador dos cursos de cirurgia avançada para implantodontia – CEO São José-SC e ABO Florianópolis-SC; Autor de mais de 70 artigos nacionais e internacionais; Autor do livro Reconstruções teciduais em implantodontia – por que, quando e como?

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