Emergências

Por Marco A. Bianchini | 11 de setembro de 2017

Quem nunca atendeu uma emergência no consultório? Todos nós, dentistas, que atuamos na prática clínica diária, já vivemos essa experiência. Seja no consultório particular ou em ambulatórios do serviço público, sempre aparecem pacientes sem hora marcada reclamando de algum tipo de dor ou outro tipo de problema. Pode ser um provisório que soltou, uma restauração que caiu, um abscesso agudizado, etc. Qualquer problema que cause um transtorno maior aos pacientes faz com que eles nos procurem diretamente, sem agendar.

Dentro dos diversos tipos de emergências que podemos atender, as que causam dor são as que mais afligem aos pacientes. A popularmente chamada de “dor de dente” tem relatos terríveis por parte dos pacientes, e é descrita como uma das dores mais fortes que podem acometer o ser humano. Eu mesmo já tive uma experiência desse tipo. O meu dente 17, que já tinha uma endodontia não muito bem feita, teve um processo de reagudização. No meio da madrugada, eu acordei e a dor não passava com nenhum tipo de analgésico ou anti-inflamatório. Tive que partir para uma antibioticoterapia. A sorte é que eu tinha receita em casa e pude me dirigir a uma farmácia e comprar a medicação, que me aliviou um pouco. No outro dia, lá estava eu sentado na cadeira, sendo atendido por um colega e abrindo o dente.

Na Implantodontia também temos muitas emergências. O afrouxamento das próteses é, talvez, a mais comum. Contudo, abscessos peri-implantares também são bastante frequentes e causam uma extrema dor nos pacientes. Dentro dessa variedade de situações clínicas e de especialidades que podem gerar uma emergência, as mais complicadas, que fazem os pacientes ligarem para as nossas casas ou celulares, são aquelas que complicam a vida, tanto de pacientes como de profissionais. Difícil para os clientes – que estão sofrendo a dor – e delicada para nós, dentistas, pois elas geralmente acontecem nos finais de semana e feriados, quebrando a nossa rotina de descanso tão esperada. E o pior de tudo é que isso, frequentemente, acontece com algum parente.

Felizmente para uns e infelizmente para outros, essa foi a profissão que escolhemos e não podemos, de modo algum, dispensar uma pessoa com dor que procura o nosso auxílio. Nessas situações, o aspecto financeiro acaba ficando em segundo plano, pois mesmo que estejamos sendo bem remunerados no atendimento de uma emergência fora de expediente, não há dinheiro que pague a quebra do nosso descanso para voltar a trabalhar em um feriado ou fim de semana. Já dizia o filósofo, médico e teólogo alemão Albert Schweitzer: “As únicas pessoas verdadeiramente felizes são as que buscam uma maneira de ser úteis às outras”. Assim, o atendimento emergencial da dor não é apenas uma questão ética e legal, mas também de satisfação pessoal.

Dentro desse contexto, em um feriado, tive a oportunidade de realizar um atendimento “quase” emergencial, por telefone, mas que me deixou muito satisfeito. Estava eu relaxando em uma praia fora de Florianópolis com amigos e familiares, quando uma prima minha, muito próxima, acabou me ligando e relatando que teve uma pulpite daquelas. Ela procurou atendimento no seu dentista que lhe prestou socorro, abrindo dois dentes, mas a dor, infelizmente, continuava. Por telefone, ela me relatou que estava com enfartamento ganglionar e a dor lancinante já estava na região do ouvido. Os gânglios enfartados já me constatavam a disseminação do processo e indicavam claramente a necessidade de uso de antibióticos. Foi exatamente o que eu fiz e, algumas horas depois, retornei a ligação para ela, que me informou que os sintomas haviam aliviado.

Embora eu não tenha atendido a paciente diretamente na cadeira, o meu telefonema resolveu a situação emergencial. Felizmente, a paciente tinha amoxicilina em casa e não necessitou de receita. Também tive um pouco de sorte que a dor cedeu. Em muitas situações como essa, além da medicação, temos que intervir e abrir o dente. Entretanto, o mais importante foi atender o telefonema, dar o retorno e tentar resolver o problema. Só quem já teve uma dor desse tipo sabe o que as pessoas estão sentindo quando nos ligam. Resolver a crise aguda de dor desses pacientes é muito gratificante e nos remete ao princípio básico da nossa profissão, que é: servir.

Marco A. Bianchini

Professor adjunto do Departamento de Odontologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Coordenador do Curso de Especialização em Implantodontia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Autor do livro – O passo a passo cirúrgico na Implantodontia.

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