Eutanásia dental: contrariando convicções

Por Marco A. Bianchini | 11 de setembro de 2017

Eutanásia dental: contrariando convicções

Ter posições únicas e radicais pode comprometer um planejamento correto

Alguns casos não deveriam ser tratados no consultório de quem gosta de manter dentes naturais, como eu. Existem algumas situações que nos deixam com a cabeça quente, saindo fumaça pelos ouvidos. Ter posições únicas e radicais pode comprometer um planejamento correto. Entretanto, nossas convicções às vezes falam mais alto e acabamos decidindo por elas, ao invés de decidirmos pelo bom senso.

Há quatro anos, um paciente me procurou queixando-se da prótese removível inferior bilateral que ele utilizava na região posterior da mandíbula. Eu solicitei uma tomografia que revelou a ausência de tecido ósseo na região a ser implantada, além de uma presença “incômoda” do nervo alveolar inferior, com extensão para anterior.

Contrariando as minhas convicções, eu entendi que se o paciente realmente optasse por um trabalho fixo, ele teria que sacrificar os seus dentes anteriores para realizar um protocolo. É a chamada eutanásia dental, que eu tanto critico. Mesmo assim, o trabalho seria bastante arriscado em função da extensa reabsorção óssea posterior, que resultaria em uma compensação acrílica muito grande na prótese, além do risco de fratura da mandíbula. Agora imaginem vocês: extrair os dentes naturais de um paciente e ainda dar-lhe de “presente” uma fratura mandibular.

Depois de muita conversa e explicações, o paciente aceitou a nossa proposta e assumiu os riscos em conjunto conosco. Partimos então para a cirurgia e realizamos uma carga imediata em all-on-four, com prótese protocolo metaloplástica sobre implantes de plataforma cone-morse. O paciente se adaptou rapidamente à prótese protocolo, o que foi uma surpresa para nós, pois, geralmente, pacientes que têm dentes naturais substituídos por uma prótese fixa se queixam bastante do volume e da união de todos os elementos. Este caso já possui acompanhamento de quatro anos.

Este paciente ficou muito satisfeito com o trabalho, e nós também, diga-se de passagem. Aliás, eu diria que fiquei bem aliviado com este resultado, pois ele me fez ver que, muitas vezes, a exodontia ou a eutanásia dental pode ser um caminho a ser seguido com bons resultados em médio e longo prazo.

Atualmente, o paciente se queixa dos desgastes dos dentes da prótese inferior. Não pela estética, mas sim pela diminuição da capacidade de triturar e mastigar os alimentos. Apesar de usar uma placa miorrelaxante, pois tinha histórico de bruxismo, o desgaste inferior tornou-se inevitável pelas estruturas de porcelana do arco superior.

Desde os tempos da graduação aprendemos a não reabilitar dentes antagonistas com materiais diferentes. Obviamente que eu me lembrei disso há quatro anos. Contudo, o protocolo da época, para carga imediata, era metaloplástica. Confesso que fiquei com medo de fazer uma metalocerâmica e perder todo o trabalho. Talvez devêssemos ter feito uma prótese provisória metaloplástica em carga imediata, e a posterior confecção de uma metalocerâmica após três meses, quando teríamos a confirmação da osseointegração. Isto seria o ideal, mas elevaria muito os custos.

De qualquer maneira, poderemos realizar agora uma metalocerâmica e dar continuidade ao sucesso do caso, afinal nenhuma prótese dura uma vida inteira, e uma vez que os implantes estão bem estáveis, eu tenho segurança para um trabalho cerâmico.

Marco A. Bianchini

Professor adjunto do Departamento de Odontologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Coordenador do Curso de Especialização em Implantodontia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Autor do livro – O passo a passo cirúrgico na Implantodontia.

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Marco A. Bianchini