Implantes em sessão única ou em várias consultas?

Por Marco A. Bianchini | 11 de setembro de 2017

Quando estamos oferecendo um tratamento com implantes aos nossos pacientes, sempre nos deparamos com a ideia de realizar tudo o mais rápido possível. É a tendência do mundo atual. Correr pra acabar tudo logo e poder iniciar um novo caso. Assim, otimizamos o tempo e ganhamos mais dinheiro. Isto não ocorre só com os implantes. De maneira geral, quase todos os tratamentos odontológicos podem oferecer esta possibilidade da resolução em sessão única ou em duas ou três sessões. Basta ver as opções que temos para as mais diversas áreas: carga imediata, raspagem full mouth, CAD/CAM, clareamento a laser etc., todos com o objetivo de terminar mais rápido o tratamento. E os pacientes, como reagem a isso?

A maioria dos pacientes acaba sendo induzida pelas nossas propostas. Oferecer um tratamento em uma ou poucas sessões é extremamente atrativo para qualquer pessoa, principalmente no contexto atual, em que todos estão sempre correndo. Assim, quando explicamos aos nossos clientes que iremos realizar em uma única vez aquilo que outros colegas necessitariam de várias consultas, eles acabam comprando a ideia, convencidos pelas nossas considerações. Esta ideia de sessão única fica ainda mais atrativa quando associamos a ela a presença de um médico anestesiologista, que irá realizar uma sedação endovenosa no paciente promovendo um relaxamento ainda maior. Contudo, muitos profissionais não usam a sedação e executam estes tratamentos imediatos apenas com anestesia local, o que pode trazer um grande desconforto ao paciente.

Baseados nisso, eu e um colega da área de Marketing da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro (Professor Eduardo Bitencourt Andrade), elaboramos um experimento para avaliar o quanto poderíamos induzir um paciente em suas decisões sobre integrar ou separar um tratamento odontológico. Este trabalho foi objeto de dissertação de mestrado de um orientado meu, que é coautor da publicação disponível na íntegra.

Basicamente, o experimento consistia em perguntar aos pacientes se eles queriam realizar o tratamento em sessão única ou em várias sessões. O tratamento era uma raspagem de boca toda. Após a decisão do paciente, nós realizávamos dois tipos de exames: No Grupo 1, um exame clínico com espelho realizando um CPOD; e no Grupo 2, um periograma com sondagem. Ambos os exames tinham o mesmo tempo de duração. Como no periograma existe uma sensação de desconforto ou até mesmo de dor, após este exame os pacientes do Grupo 2, que haviam decidido fazer em várias sessões, mudavam de opinião e optavam pela sessão única. Já aqueles que haviam escolhido pela sessão única, não mudavam de opinião e mantinham a mesma decisão. Assim, um simples estímulo fazia com que os pacientes mudassem e questionassem a sua capacidade de suportar a dor em várias sessões, fazendo com que estes optassem por realizar tudo de uma só vez.

O maior achado deste experimento é que os pacientes são relativamente manipuláveis, principalmente quando se trata de dor. Conforme o que propomos, mostramos ou realizamos, eles acabam indo na direção que nós queremos. A maioria dos clientes acaba confiando naquilo que oferecemos. O grande problema dessa constatação é que isso aumenta sobremaneira a nossa responsabilidade e diminui a nossa possibilidade de erro. Quando as nossas propostas não se traduzem naquilo que os pacientes esperavam, isso acaba trazendo muitas frustrações e nós acabamos culpados pelo insucesso e por prometer aquilo que não aconteceu.

Oferecer tratamentos em poucas sessões não é pecado, e tem suas indicações precisas. Contudo, é necessário que esta não seja considerada a única maneira de se fazer Odontologia. Cair na correria do mundo atual é correr atrás do vento. Fazer tudo muito rápido pra poder atender mais e mais, e nunca ter tempo livre, é uma tremenda burrice. Rico é quem tem tempo de sobra. Por isso, é muito importante e necessário que se fale a verdade, sem rodeios, explicando aos clientes o que exatamente pode acontecer, principalmente quando estamos oferecendo o paraíso em seção única.

Marco A. Bianchini

Professor adjunto do Departamento de Odontologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Coordenador do Curso de Especialização em Implantodontia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Autor do livro – O passo a passo cirúrgico na Implantodontia.

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Marco A. Bianchini