Os implantes agulhados e a Implantodontia do passado

Por Marco A. Bianchini | 18 de setembro de 2019

Marco Bianchini relembra a importância dos implantes intraósseos de profundidade, que tinham a maior penetração óssea da época e eram associados a uma fabricante de automóveis.

Durante o mês de maio, eu tive a oportunidade de concluir a biografia do Dr. Nilton De Bortoli, um dos implantodontistas mais experientes do Brasil. O livro, além de contar a história de vida do Dr. Nilton, também contou um pouco da história da Implantodontia do Brasil e do mundo. Um dos temas mais interessantes relatados pelo Dr. Nilton diz respeito aos implantes agulhados, que marcaram época nas décadas de 1960 e 1970.

Os implantes de agulhas eram implantes intraósseos de profundidade e atingiam uma penetração óssea mais profunda do que a maioria dos implantes da época. Eles foram criados pelo francês Jacques Scialom, em 1961. A técnica era bastante simplificada e não necessitava de internação hospitalar, podendo ser realizada em ambiente ambulatorial. As agulhas fabricadas em metal tântalo – e geralmente em um número de três – eram os implantes propriamente ditos e poderiam ser colocadas sem a abertura de retalho. Elas deveriam ser as mais profundas possíveis, procurando ancoragem em osso cortical, com convergência final para a parte oclusal, onde seria confeccionado o dente. Apesar de aparentemente a técnica ser simples, o posicionamento correto das agulhas era imprescindível, e isso exigia grande habilidade e treinamento do operador.

 

Figura 1 – Sequência cirúrgico-protética de implantes agulhados. Imagem obtida do livro: Serson D. Implantes Orais: Teoria e Prática. Artes Médicas, 1985.

 

Estes implantes ficaram muito populares nas décadas de 1960 e 1970, principalmente na região anterior superior, quando o paciente era desdentado dos dois ou dos quatro incisivos superiores. Nestas áreas, então, eram colocados implantes agulhados para servirem de pilares para os incisivos superiores faltantes. Cada dupla de implantes agulhados convergia para a área do incisivo faltante e sobre eles executava-se uma prótese fixa, reabilitando todos os incisivos. No caso da ausência apenas dos incisivos centrais, as próteses poderiam ser unitárias.

Este tipo de reabilitação ficou conhecido como “Volkswagen”, pois os implantes agulhados posicionados nesta área tinham uma imagem radiográfica que lembrava muito o símbolo da Volkswagen, importante empresa alemã fabricante de automóveis que teve no Fusca (nome alemão: Volkswagen) o seu maior sucesso de vendas no Brasil.

O Dr. Nilton De Bortoli relata como era o dia a dia da colocação desses implantes agulhados. “O cliente chegava lá com a falta dos incisivos e a gente perguntava: vamos fazer um Volkswagen? O cliente perguntava: o quê? Você vai por um carro na minha boca? Daí, quando a gente mostrava uma radiografia de um outro caso já pronto, os clientes riam muito, logo entendiam e já aceitavam o tratamento, pois o símbolo da Volkswagen era conhecidíssimo.”

 

Figuras 2 e 3 – Radiografia panorâmica de implantes agulhados realizados pelo Niltão na década de 1970 na região dos incisivos centrais superiores e o símbolo mundialmente conhecido da empresa automobilística Volkswagen.

 

Conhecer a história da Implantodontia de raiz nos remete a um passado pré-Branemark, no qual vários tipos de implantes foram surgindo, antes de chegarmos aos formatos cilíndricos e cônicos que conhecemos hoje. Esta Implantodontia, que era muito empírica e foi bastante criticada e marginalizada, certamente contribuiu para que chegássemos ao nível de conhecimento científico que temos hoje em dia. Eu fico imaginando aqui se, daqui a algumas décadas, Deus me der o prazer de estar vivo, o que eu vou escutar dos meus netos e bisnetos quando eles avaliarem os meus casos?

 

Fonte: http://www.inpn.com.br/InPerio//Materia/Index/174458

Marco A. Bianchini

Professor adjunto do Departamento de Odontologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Coordenador do Curso de Especialização em Implantodontia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Autor do livro – O passo a passo cirúrgico na Implantodontia.

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Marco A. Bianchini