Os implantes e a arcada dental reduzida

Por Marco A. Bianchini | 11 de setembro de 2017

Como proceder quando o paciente não pretende ser reabilitado com 32 dentes?

Marco Bianchini conta sua experiência

Receber pacientes que têm poucos dentes na boca e querem colocar implantes para poder ter mais dentes e “melhorar” a mastigação faz parte da nossa rotina diária. Inúmeros são os clientes que nos procuram buscando solucionar esse tipo de problema. Contudo, muitos deles não são assim tão desejosos de ter muitos e muitos dentes na boca. Algumas pessoas nos procuram para melhorar “um pouquinho” a situação de perda dental em que se encontram, e se sentem satisfeitas com apenas mais alguns elementos em boca. Esse perfil de cliente, não aspira ser reabilitado com 32 dentes na boca. O caso clínico que irei descrever a seguir relata uma situação desse tipo.

O paciente em questão, com 70 anos, nos procurou para ver se seria possível colocar implantes no seu arco superior, onde usava prótese total há mais de 30 anos e na região posterior de maxila, onde nunca se adaptou com próteses removíveis. Iniciou-se as conversações com o paciente, explicando a ele que as suas condições ósseas não eram muito favoráveis. Seriam necessários enxertos ósseos no arco superior ou até mesmo a opção por implantes zigomáticos.

No arco inferior, para conseguirmos uma reabilitação completa, teríamos que optar por uma lateralização do nervo ou a exodontia dos dentes remanescentes para colocação de uma prótese protocolo implantossuportada.

Foi então que o paciente começou a falar um pouco a minha língua. Ele achou tudo isso muito complexo e relatou que não se incomodava tanto com a prótese total que usava há muitos anos. Essa prótese tinha retenção e ele mastigava quase tudo, e me perguntou, ainda, se seria possível colocar só mais um ou dois dentes na região posterior de mandíbula e fazer uma nova prótese total superior. Seu problema não era financeiro, mas sim uma relação custo-benefício-morbidade. Ele não se interessava por procedimentos tão complexos, não via grandes vantagens em fazer isso tudo, pois não se sentia desconfortável. Queria “melhorar um pouquinho” desde que isso não lhe prejudicasse. Além disso, a ideia de extrair os únicos dentes que tinha na boca lhe causava um forte arrepio.

Ouvindo essas aspirações e desejos do paciente, eu expliquei os conceitos da arcada dental reduzida e que poderíamos reabilitá-lo até os segundos pré-molares inferiores, pois nessa região ainda seria possível colocar alguns implantes sem enxertos ósseos ou a lateralização do nervo. Reafirmei que essa técnica era conhecida há bastante tempo e também defendida por uma grande gama de pesquisadores e clínicos no mundo. Assim, levando em consideração a opinião do paciente e embasado no conhecimento científico, optou-se por confeccionar uma nova prótese total superior e a colocação de três implantes inferiores.

Casos polêmicos mexem com o nosso imaginário. Planejar reabilitações implantossuportadas levam a vários dilemas. Talvez o maior deles seja ganhar mais dinheiro em casos complexos, pois quanto mais implantes, enxertos e dentes melhor! Nada como uma boca cheia de dentes para fazer sorrir a nós, e aos pacientes.

Nem sempre as coisas funcionam dessa maneira. Existem outras formas de se resolver as ausências dentárias usando conceitos tradicionais em Odontologia. Escutar as verdadeiras aspirações do paciente é o caminho para planejarmos melhor e com mais consciência. É o chamado “patients decision making”, ou seja, decisão compartilhada com o paciente. Dá menos dor de cabeça, e mais noites bem dormidas.

Marco A. Bianchini

Professor adjunto do Departamento de Odontologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Coordenador do Curso de Especialização em Implantodontia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Autor do livro – O passo a passo cirúrgico na Implantodontia.

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Marco A. Bianchini