Pacientes resistentes à doença

Por Marco A. Bianchini | 11 de setembro de 2017

Um dos fatores mais importantes que se deve levar em consideração quando estamos realizando um tratamento odontológico é a resistência do hospedeiro. Este nome bonito (que eu nunca gostei) e consagrado na literatura refere-se aos nossos pacientes, que são quem “hospedam” os nossos tratamentos, mais especificamente os implantes.

Atualmente, a maioria de nós já dá uma atenção especial à saúde geral do paciente. Através da anamnese, conseguimos avaliar o padrão do paciente observando se ele oferece riscos à realização do tratamento com implantes.

Entretanto, fica muito difícil de detectar aqueles pacientes que são extremamente resistentes ao ataque microbiano e que não precisariam de tantos controles ao longo de suas vidas. Assim, geralmente nós acabamos colocando todos no mesmo pacote e estabelecendo programas de manutenção padronizados que atendem aos pacientes de uma mesma maneira e em um mesmo intervalo de tempo.

Recentemente, atendi em minha clínica particular um paciente que havia feito dois protocolos em carga imediata conosco há cinco anos. Ele fez apenas um controle após um ano de tratamento. Por alguma razão (falha nossa de “recall” ou dele), após este primeiro retorno, ele parou de comparecer às consultas de manutenção que eu marco de quatro em quatro meses para todos os tipos de pacientes, não importando o risco. Vejam a descrição do caso abaixo.

Confesso a vocês que quando o paciente abriu a boca e eu me deparei com essa situação, já fui me preparando para tratar mais um caso de peri-implantite. Entretanto, não havia alterações ósseas. Certamente, trata-se de um hospedeiro resistente com um biofilme pouco virulento. Para confirmar, teríamos que fazer coleta microbiológica. Mesmo assim, dá para apostar em um paciente resistente à doença.

Esses conceitos de resistência do hospedeiro e virulência bacteriana já foram e são exaustivamente estudados na Periodontia. Muitos desses achados se aplicam na Implantodontia. Este não foi o primeiro caso em que eu me deparei com esses padrões, e nem será o último. Casos de Periodontia, com dentes naturais, muitas vezes também demonstram este padrão. Isto não é novidade na literatura, mas nos reforça a ideia de que devemos avaliar os pacientes individualmente, sem estabelecer padrões idênticos para todos. Como diz o meu grande mestre e amigo, professor Wilson Sallum, “A Implantodontia está revelando conceitos que já foram descobertos pela Periodontia há muitos anos”.

Marco A. Bianchini

Professor adjunto do Departamento de Odontologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Coordenador do Curso de Especialização em Implantodontia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC); Autor do livro – O passo a passo cirúrgico na Implantodontia.

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Marco A. Bianchini