Como medir a estabilidade dos implantes? Marco Bianchini destaca a importância de um aparelho que pode ser usado no dia a dia clínico para entender melhor a estabilidade dos implantes.

Por Marco A. Bianchini | 13 de outubro de 2021

A modernização de ferramentas que já existem leva a Implantodontia a níveis mais previsíveis. (Imagem: Depositphotos)

Um dos principais requisitos para a obtenção da osseointegração é a estabilidade inicial que atingimos no momento da instalação dos implantes. Esta estabilidade primária mecânica permite que as diversas fases envolvidas no processo de osseointegração ocorram adequadamente, desde a primeira interface formada entre o coágulo e a superfície do implante. Entretanto, quando se fala em estabilidade, devemos ter em mente que ela pode ser dividida em dois tipos: estabilidade primária e estabilidade secundária.

A estabilidade primária pode ser determinada pela densidade óssea, quantidade óssea, técnica cirúrgica e desenho do implante. Geralmente medimos esta estabilidade inicial com torquímetros cirúrgicos (manuais e eletrônicos) que, na verdade, nos dão um valor de torque de inserção, e não uma medida de estabilidade propriamente dita. Falando a linguagem clínica dos implantodontistas, ao final da colocação de um implante, nós sempre avaliamos se ele travou ou não travou. Este travamento é a nossa medida clínica para avaliar se o implante vai dar certo ou não.

A estabilidade secundária é obtida após a reparação óssea, ou seja, após o período de osseointegração dos implantes. A estabilidade secundária pode ser considerada uma consequência da estabilidade primária, somando-se a ela o ganho com a formação e remodelação da interface osso/implante, ocorridas durante o período de osseointegração. A estabilidade secundária geralmente é medida após a cirurgia de segundo estágio, quando colocamos o pilar protético sobre o implante. Este valor também é obtido através do uso de torquímetros.

Na verdade, para a maioria dos clínicos, a estabilidade secundária obtida nos implantes após o período de cicatrização é confirmada pelo teste manual, com a chave utilizada para a instalação dos pilares protéticos. A ausência de dor e mobilidade sugerem um implante estável e osteointegrado. Exames radiográficos também auxiliam bastante nesta avaliação, pois podem comprovar a presença de radiolucidez em torno dos implantes, indicando algum problema mais grave. Contudo, até mesmo implantes com imagem radiográfica sugestiva de normalidade, com aspecto de osteointegração, podem apresentar mobilidade, pois o fenômeno da osseointegração é microscópico e, muitas vezes, não apresenta uma imagem radiográfica conclusiva.

Esta dificuldade de obter uma avaliação mais fiel da estabilidade inicial e secundária dos implantes levou muitos pesquisadores a buscarem algum método mais eficiente para comprovação. Assim, ao final da década de 1990, tivemos as primeiras publicações de artigos liderados por Lars Sennerby e Neil Meredith, apresentando um instrumento de medição da estabilidade nas diversas fases da osseointegração, conhecido como Osstell. Atualmente, esse aparelho está em sua quinta versão, com uma metodologia fácil e rápida, podendo ser usado no dia a dia clínico dos implantodontistas.

O Osstell utiliza uma medida para indicar a estabilidade: o ISQ – Quociente de Estabilidade do Implante. Com este equipamento, é possível ter o acompanhamento da evolução da estabilidade mecânica primária para a estabilidade biológica secundária, inclusive para confirmar o seu carregamento antecipado. O valor ISQ objetivo e numérico é obtido através da irradiação eletromagnética de um SmartPeg – uma peça de alumínio com um imã na ponta, que é parafusado no hexágono/conexão externa ou hexágono/conexão interna do implante, dependendo do tipo de conexão em questão. Os autores José Henrique Cavalcanti Lima, Marc Lindner, Sergio Gehrke e Patrícia Cristina Matos publicaram um artigo muito interessante no qual descrevem em detalhes a utilização deste aparelho.

O Osstell é utilizado na avaliação clínica durante o processo de osseointegração, permitindo aos implantodontistas acompanhar clinicamente com precisão se o índice de estabilidade está aumentando ou diminuindo, medido pela unidade ISQ. O acompanhamento dos valores ISQ permite criar a curva da osseointegração, dando valores mais precisos sobre o que realmente está acontecendo com o implante dentro do osso. A utilização clínica do Osstell traz grandes benefícios, pois pode aferir a estabilidade do implante em diferentes fases de cicatrização óssea.

Além de identificar valores mais precisos da estabilidade primária e secundária, o Osstell também permite avaliar precocemente as lesões peri-implantares com comprometimento ósseo. Identificar antecipadamente os efeitos deletérios de uma peri-implantite influencia diretamente na estabilidade e manutenção do implante em função no longo prazo, sem falar que também é possível acompanhar o resultado de tratamentos que envolveram o reparo tecidual ósseo através da regeneração óssea guiada de implantes submetidos a tratamentos cirúrgicos de peri-implantites.

Assim, percebe-se que existe uma tendência mundial na utilização em larga escala do Osstell, pois o mesmo oferece uma visão mais clínica e longitudinal da obtenção e manutenção da osseointegração. O desenvolvimento e a modernização destas ferramentas que já existiam levam a Implantodontia a níveis mais previsíveis de obtenção do sucesso e na detecção imediata de problemas que podem levar à perda de implantes.

Fonte: https://bit.ly/2YFMkCm

Marco A. Bianchini

– Professor Associado IV do Departamento de Odontologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC);
– Autor dos livros: “O passo a passo cirúrgico na Implantodontia”; “Alterações Peri-Implantares” e
“Meu nome é Implante: A Biografia do Dr. Nilton De Bortoli.”

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