Implantes curtos: uma solução viável para mandíbula posterior atrófica

Por Paulo Cesar da Cruz | 11 de setembro de 2017

Apesar da alta previsibilidade de sucesso com implantes osseointegráveis, existem ainda algumas situações em que o desafio é maior; como a região posterior da mandíbula. Esta região apresenta limitações anatômicas e clínicas que dificultam a cirurgia e devem ser avaliadas criteriosamente na instalação dos implantes. A maior limitação é a pouca altura óssea entre a crista do rebordo e o plexo dentário inferior, encontrada na maioria dos planejamentos cirúrgicos.

Sempre há o risco de envolver o nervo alveolar inferior durante a colocação de implantes nesta situação, causando parestesias que em alguns casos podem ser de difícil solução. Alguns autores recomendam um espaço de segurança em relação ao canal mandibular de 2 mm quando avaliado por radiografia e de 1 mm quando avaliado por tomografia.

Para evitar cirurgias como enxerto em bloco, distração osteogênica e lateralização do alveolar inferior, que são cirurgias de pouca previsibilidade ou com grau de morbidade considerável, podemos lançar mão dos implantes curtos.

Até final dos anos 1990 era bastante comum o índice de insucesso com implantes curtos ser bastante elevado. Com o aprimoramento das técnicas cirúrgicas, advento de novos formatos de implantes, implantes de largo diâmetro e principalmente novos tratamentos de superfície de titânio, os índices de sucesso melhoraram consideravelmente. Diversos trabalhos publicados por muitos autores em vários países evidenciam um índice de sucesso, com implantes curtos, na faixa de 96 a 98% ou seja; muito próximo do índice de sucesso de implantes mais longos.

Muitos trabalhos de pesquisa têm evidenciado que a quase totalidade das cargas oclusais são dissipadas nos primeiros 4 ou 5 mm do implante e que grande parte desta carga fica condensada na região crestal do osso. Estes trabalhos justificam o uso de implantes curtos, desde que o planejamento cirúrgico e protético sejam bem elaborados e executados.

No planejamento devemos optar pelo maior número possível de implantes, implantes de largo diâmetro (desde que haja espessura suficiente) e utilizar guia cirúrgico para um perfeito posicionamento.

Devemos também levar em consideração que se houver uma perda óssea quando o implante for carregado, poderá ser bastante prejudicial para a longevidade da reabilitação. Se houver uma reabsorção óssea de 2 mm para um implante de 7 mm de comprimento, significa que houve uma perda de quase 30% do suporte do implante, índice bastante significativo nesta situação.

No planejamento devemos optar sempre que possível por uma reabilitação com plataforma switing, prevenindo desta maneira a perda óssea ao redor do implante.

Outro cuidado a ser observado durante o ato cirúrgico é evitar uma lesão ao plexo alveolar inferior. Uma análise metódica de radiografias e tomografias, uso de fresas curtas, de preferência individualizadas para o comprimento do implante que será colocado, são fundamentais para uma cirurgia sem intercorrências.

Na confecção da prótese devemos adotar uma abordagem biomecânica para proteger os implantes, tais como: esplintar os implantes, não usar cargas de cantilever, oclusão mutuamente protegida com guia canino.

Com a tecnologia e pesquisas atuais das empresas, e técnicas cirúrgicas aprimoradas, é cada vez maior o número de implantes curtos colocados com um índice de sucesso muito próximo dos implantes mais longos.

Foi feito um levantamento sobre a porcentagem de implantes curtos instalados no curso de atualização em implantes dentários na Fundecto-USP , curso coordenado pelo Prof. Dr. Nilton De Bortoli Jr, durante os anos de 2007/2008/2009/2010/2011/2012. O número total foi 8369 implantes instalados. O número de implantes curtos (7 mm/8 mm/ e 9 mm) foi de 1931, chegando a uma porcentagem de 23,07%.

Como este trabalho foi feito em cima de números bastante expressivos há de se concluir que nos nossos consultórios particulares a situação deve ser parecida, portanto devemos estar atentos para esta situação, procurando utilizar implantes com design e superfície de tratamento que favoreçam a osseointegração e a sua manutenção.

Referências bibliográficas:

Anitua, E; Orive, G; Aguirre, JJ; Andiá, I. Five-Year Clinical Evaluation of Short Dental Implants Placed in Posterior Areas: A Retrospective Study. J Periodontol. 2008;79:42-48.

Misch, CE; Steigenga, J; Barbosa, E; Dietsh, FM; Cianciola, LJ; Kazor, C. Short dental Implants in posterior partial eden- tulism: A multicenter retrospective 6-year case series study. J Periodontol. 2006;77:1340-1347

Renouard F, Nisand D. Short implants in the severely resorbed maxilla: a 2-year retrospective clinical study. Clin Implant Dent Relat Res. 2005;7 Suppl 1:104-10

Romeo, E; Chisolfi, M; Rozza, R; Chiapasco, M; Lops, D. Short (8mm) dental implants in the rehabilitation of partial and complete edentulism: A 3-14 year longitudinal study. Int J Prosthodontic. 2006;19:586-592.

Paulo César da Cruz

Graduado em Odontologia pela Universidade de Mogi das Cruzes (UMC); Especialista em Implantodontia pela Associação Paulista de Cirurgiões Dentistas (APCD – São Bernardo do Campo); Professor do Curso Implantodontia (Fundecto-USP); Professor do Curso Especialização Implantodontia Associação Paulista de Cirurgiões Dentistas (APCD – São Bernardo do Campo); Professor do Curso Implantodontia Colégio dos Odontólogos de Lima (Peru) e Professor Coordenador Curso Especialização Implantodontia Funorte-Soebras (Rio de Janeiro).

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